Há quem não leve desaforo para casa. O cara fala tudo que lhe vem à cabeça, na hora em que acha que deve. E a porradaria costuma sair pela boca do jeito que ela sobe das entranhas, sem cortes, em versão integral. Trata-se do sujeito cabeça quente. Não raro, ele se dá mal. Mais cedo ou mais tarde, seus espinhos são cortados por alguém. Ou por todos, em conjunto, de maneira velada ou explícita.
Mas há também quem se dê bem com esse comportamento. É que ser irascível pode muitas vezes funcionar como uma arma: todo mundo sabe que o sujeito é bravo e acaba não dizendo para ele as coisas que ele não gostaria de ouvir. Afinal, boa parte das pessoas não quer confronto, não gosta do desgaste. Então essa postura não-me-toque acaba poupando o sujeito de um bocado de contrariedades na medida em que gera uma auto-censura prévia nos interlocutores.
Eu sempre considerei que se alterar é uma admissão de incompetência. Para mim, perder o controle significa admitir que a situação adversa venceu. Que as palavras já não bastam, que o raciocínio se esgotou, que a própria capacidade do sujeito de convencer o outro e de contornar uma determinada situação se extinguiu. Para um sujeito controlador, como eu, perder o controle gera muito desconforto. Então acabo resolvendo isso de modo bem esquisito: prefiro engolir, mastigar, digerir o sapo a sair esbofeteando o batráquio. No fundo, portanto, a serenidade que eu tento manter diante dos momentos inóspitos é nada mais do que uma grande soberba. O que, como você sabe, é um pecado capital.
É assim: não me altero porque sou magnânimo. Penso sempre: "sou maior do que isso". Não importa o tamanho da bronca, a gravidade da situação, o agravo gerado pelo meu interlocutor. Nunca jogo a toalha nem dou o braço a torcer para a rinha. Nunca me perco da calma. Sempre acho que tenho condições de resolver. Ou seja: não admito que haja adversário que me vença a tal ponto de eu precisar levantar a voz ou esmurrar a mesa. E isso, que poderia ser uma virtude, acaba se mostrando um vício.
Se você é parecido comigo, eis o que precisamos perceber: se explodir sempre é um problema, implodir sempre também é uma solução para lá de malparada. Não somos latas de lixo. Não somos feitos para acumular todo tipo de porcaria e aparentar, com fleuma, que aquilo nem está acontecendo, incomodando, doendo. Tem horas que é preciso aumentar o tom de voz, sim. Trancar a porta e dizer: "aqui você não entra".
Eis o ponto. O sujeito que não se altera nunca, o eterno cabeça-fria, talvez seja o melhor cara do mundo. (Ao menos na sua auto-imagem.) Mas talvez também seja a vítima auto-imune de uma histeria interna crônica, silenciosa, muito mais doida e prejudicial do que a histeria histriônica, ridícula, risível e atabalhoada de quem perde as estribeiras a toda hora.